Segunda, 12 de Agosto de 2013 às 17:41

Comissão da Verdade ouve relato sobre tortura no Galeão

Jos Bezerra SilvaSessões da segunda rodada de oitivas públicas de militares perseguidos pela ditadura no Rio de Janeiro começaram na manhã de hoje e seguem até a tarde de amanhã

A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro ouviram hoje dois militares que foram perseguidos pela ditadura e os filhos de três militares que também se opuseram ao regime e por isso foram prejudicados em suas vidas e carreiras.

José Bezerra da Silva e Belmiro Demétrio, ambos ex-militares da Aeronáutica, relataram as torturas e perseguições que sofreram por serem considerados "subversivos" e apoiadores de Brizola e João Goulart.

José Bezerra da Silva serviu na base aérea do Galeão entre os anos de 1971 e 1979. Durante a audiência ele apontou, com o auxílio de uma foto aérea do local, os pontos exatos da base onde os presos políticos eram mantidos e torturados.

"Os carros que entravam lá eram viaturas da Polícia do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Havia dois opalas, um bege e um cinza, que também entravam. Nós tínhamos que deixar eles passarem. Desses carros, saiam os presos, às vezes com capuzes, outras vezes dentro de sacos. Eles eram levados para o subterrâneo, e eram submetidos a torturas terríveis", relatou Bezerra.

Em uma das ocasiões, o então cabo da aeronáutica relata ter visto o militante Stuart Angel entrar nas dependências da base. "Nesse batalhão foi assassinado o Stuart Angel, que foi morto pelas toxinas que saíram do cano de escapamento do oficial do dia. Eu estava na porta no dia, eu vi o carro entrar com ele."

De acordo com Bezerra, militares que não apoiavam o golpe também sofriam torturas. "Uma vez eu caí na besteira, na inocência, de dizer que achava covardia três, quatro caras, em cima de um menino. Fui preso, torturado, fui parar no hospital." Segundo o próprio ex-militar, hoje, no local onde eram presos e torturados os militantes políticos, existe um parque, mas ele não acredita em destruição de documentos. "Eu acredito que esse presídio esteja coberto só por grama. Mas está lá, está tudo lá. Não tem nada queimado. Funcionário público não queima documento público".

Belmiro Demétrio serviu em Canoas (RS), e foi perseguido por ter manisfestado apoio ao presidente João Goulart. "Eu disse que não tinha nada contra Jango, que achava ele até um homem muito bom para o país. Isso foi em uma sexta-feira, em uma partida de futebol. Aí ele (comandante) me deu um tapinha no ombro e disse: 'boa sorte, meu filho'. Na segunda-feira eu estava preso", contou.

Assista aqui ao histórico da transmissão ao vivo de hoje

Veja também o primeiro depoimento de Bezerra à CNV, em maio deste ano


FILHOS DE MILITARES - Essa foi a primeira vez que a Comissão dedicou parte da tomada de depoimentos exclusivamente a filhos de militares-vítimas da repressão. Cláudia Gerpe Duarte, filha do major-brigadeiro Fausto da Silveira Gerpe, Carlos Augusto da Costa Rodrigues, filho do coronel Dagoberto Rodrigues, e Pedro Moreira Lima, filho do Brigadeiro Rui Moreira Lima depuseram às Comissões.

Os pais dos depoentes foram contrários ao golpe e sofreram perseguições diversas. Rui Moreira Lima foi preso e expulso da aeronáutica por ser contrário ao golpe, Rodrigues comandava o Departamento de Correios e Telégrafos no governo Jango e, por isso, perseguido. Gerpe recusou-se a aceitar ordem para derrubar o avião de Jango, caso sua rota em direção ao exílio incluísse o Norte do país, onde servia.

Carlos Augusto teve que se exilar com a família no Uruguai em 1964, quando tinha apenas 10 anos de idade. Ele conta que mais tarde descobriu que, mesmo nessa época, já tinha todos os passos vigiados. Ele e a irmã foram presos quando voltaram ao Brasil por suspeita de ligação com grupos de resistência.

Cláudia Gerpe Duarte e Pedro Moreira Lima destacaram o constante medo sob o qual viveram toda a vida, inclusive após a redemocratização. "Mesmo depois da redemocratização a gente tinha medo de falar, porque a gente tinha medo de sofrer represália, sei lá, parecia errado", frisa Cláudia. "Mas hoje a gente não precisa ter mais medo, depois de tanto tempo, hoje com mais de 60 anos eu consigo falar, consigo escrever, não tenho que ter mais medo", completou Pedro Moreira.

As oitivas públicas continuam amanhã, a partir de 9h30, com depoimentos de mais seis militares perseguidos. José Alípio Ribeiro, Joaquim Aurélio de Oliveira, Wanderlei Rodrigues da Silva, Dilson da Silva, da Unidade de Mobilização Nacional Pela Anistia (Umna) e Comandante Ribamar Torreão, da Marinha, presidente em exercício da Associação Democrática e Nacionalista dos Militares (Adnam) e Coronel Lourival Moreira, do Exército, militar perseguido por defender a legalidade democrática em 1964.

SERVIÇO
O quê: Segunda sessão pública para depoimentos de militares vítimas da ditadura
Quando: 13 de agosto de 2013 (segundo dia)
Horários:
primeiro bloco, 9h30; segundo bloco, 14h
Onde: Auditório da Caarj
Endereço: Av. Marechal Câmara, 210, 6º andar - Castelo - Rio de Janeiro - RJ
Transmissão ao vivo: http://www.twitcasting.tv/CNV_Brasil

Comissão Nacional da Verdade
Assessoria de Comunicação
Mais informações à imprensa: Lívia Mota e Thiago Vilela
(61) 3313-7324 | O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
Acompanhe a CNV nas redes sociais: Facebook, Twitter e Youtube.