Terça, 29 de Outubro de 2013 às 19:52

Chacina de Quintino: história recontada 41 anos depois

996967 531488226945004 1395435698 nDepois de 41 anos, a história da "Chacina de Quintino", ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de março de 1972, vitimando três militantes da organização VAR-Palmares, foi contada com base em provas reais, derrubando a versão oficial da ditadura.

Depois de realizar pesquisas e coleta de testemunhos, como entrevistas com os vizinhos da vila 8985, em Quintino, e com o médico-legista Valdecir Tagliare, responsável por assinar a declaração de óbito das vítimas da chacina, a Comissão da Verdade do Rio realizou nesta terça-feira (29/10) um Testemunho da Verdade, em parceria com a Comissão Nacional da Verdade. A audiência, realizada no auditório da Caarj, ouviu familiares e amigos de Antônio Marcos Pinto de Oliveira, Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo e Lígia Maria Salgado Nóbrega, mortos na ocasião.

"Neste episódio, conseguimos desmontar uma farsa da ditadura. Esse aparelho, de acordo com a versão oficial, foi estourado num suposto confronto entre os militantes que estavam lá dentro e agentes de segurança do DOI-Codi. Ou seja, segundo a Ditadura houve uma troca de tiros, mas essa foi a verdade montada pela Ditadura e que vai parar de vigorar a partir de hoje", destacou o presidente da CEV-Rio, Wadih Damous.

Sobre a análise das fotos do IML e das certidões de óbito, a CEV-Rio contou com o apoio da Comissão Nacional da Verdade, que indicou dois peritos, Pedro Cunha e Mauro Yared, para acompanhar o caso. "Não foram encontrados nos laudos médicos qualquer vestígio de pólvora no corpo dos mortos e os documentos já analisados não apontam para a presença de armas no local. Esses indícios mostram que houve uma ação unilateral", explicou Pedro Cunha. Ele adiantou que um relatório com as conclusões está sendo elaborado para subsidiar as investigações.

Fátima Setúbal, irmã de Antônio Marcos, foi uma das familiares que prestou depoimento à comissão. Emocionada, ela lembrou que o enterro do irmão foi acompanhado por agentes armados. "Quando a minha mãe começava a rezar, ou chorava um pouco mais alto, os policiais diziam que ela não podia fazer barulho e que nós não podíamos chorar. Isso me marcou muito", desabafou.

Antes dela, foi a vez de Iara, filha de Maria Regina, e Francisco Nóbrega, irmão de Ligia Maria, falarem sobre a perda dos familiares na Chacina, que teve participação de equipes do Dops, DOI-Codi e apoio da Polícia Militar. "A impunidade reina em nosso país e isso é um reflexo da transição da Ditadura para a democracia. O Estado tem que mostrar a esses cidadãos, que não respeitam os Direitos Humanos, que o crime não compensa. Só dessa forma conseguiremos limpar toda a sujeira que foi deixada nesse Brasil", disse Iara.

Conclusões

Uma das provas mais contundentes de que as mortes foram resultados de execução extrajudicial e não de troca de tiros em "legítima defesa", como divulgado à época, foi a entrevista com o médico-legista Valdecir Tagliare. Ele revela que os corpos apresentavam esmagamento total das mãos e parte dos braços o que comprovaria os golpes causados por "armamento pesado". Ele contou ainda que o laudo enviado para a direção, como era o procedimento, foi adulterado. "Só tive acesso ao microfilme anos mais tarde".

Para João Ricardo Dornelles, membro da CEV-Rio responsável pela investigação, o caso é importante para entender como funcionam as práticas de extermínio que têm se perpetuado até os dias de hoje. "Conseguimos desmontar os argumentos utilizados pelo regime militar para justificar aquelas mortes. Nós temos aqui um caso, como tivemos outros, de execução. Uma lógica que se repete, nos dias de hoje, nos autos de resistência".

Comissão Nacional da Verdade
Assessoria de Comunicação

Mais informações à imprensa: Renata Sequeira (CEV-Rio) e Thiago Vilela (CNV)
(61) 3313-7355 | (61) 9631-1558 | O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Acompanhe a CNV nas redes sociais: Facebook, Twitter e Youtube.